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Eu existo e não me adapto mais a esse mundo tão inacessível

Tauany Salles, de Guarulhos, fala sobre os obstáculos do cotidiano de pessoas com baixa visão

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Por: Redação

Opinião

Publicado em 31.05.2022 | 15:51 | Alterado em 10.06.2022 | 17:22

Tempo de leitura: 3 min(s)

Ainda hoje, muitas pessoas lutam por direitos e espaço na sociedade. Mas um dos grupos que mais ocupa este lugar de busca por igualdade, sem dúvida, são as pessoas com algum tipo de deficiência. Aos 12 anos fui diagnosticada com uma doença degenerativa ocular que fez com que eu, gradativamente, fosse perdendo a minha visão.

Desde os 20, passei a conviver com o que se chama baixa visão, perda de visão que não pode ser corrigida por óculos convencionais, lentes de contato, medicação ou cirurgia.

É um grau de enfraquecimento visual. O nível de clareza e nitidez visual (acuidade visual) inferior a 20/60. Ao longo desses anos não foi fácil minha adaptação, porém, os obstáculos não me impediram de seguir em frente. Hoje, aos 27, estou no último ano da graduação em psicologia.

Como uma pessoa com deficiência visual que estuda, procura ter momentos de lazer e que está em busca de uma oportunidade no mercado de trabalho, como qualquer outra estudante universitária da minha faixa etária, costumo encontrar muitos obstáculos no dia a dia – e isso é o que muda em relação aos meus colegas.

Não contar com calçadas minimamente estruturadas, falta de piso tátil (faixa de alto-relevo na cor azul ou amarelo que auxilia na locomoção), ou semáforos de trânsito sem sinalização auditiva (um aviso sonoro que indica quando pode ou não atravessar a rua) impactam na minha independência, na minha autonomia e no meu direito de ir e vir, algo garantido a todo cidadão.

Quando ando pela cidade, observo o despreparo para acolher pessoas com deficiência. Em ambientes como as estações de metrôs e trens, por exemplo, há poucos funcionários atendendo uma demanda que só aumenta.

Essa falta de acessibilidade (facilidade de acesso a serviços como saúde, transporte e experiências como cultura, lazer) está presente em ambientes internos e externos do meu cotidiano.

Na faculdade, por exemplo, faltam rampas e pisos táteis em todos os andares, áudio-descrição nos elevadores para que eu possa reconhecer os andares, falta de preparo de professores para que alunos que não ouvem ou não enxergam consigam também acompanhar o curso e fazer atividades, como a descrição dos slides e legendas nos conteúdos audiovisuais.

Dificuldade de acessibilidade afeta pessoas com deficiência no transporte @Ira Romão/Agência Mural

Infelizmente, de maneira geral, é isso o que nós encontramos: pessoas capacitistas que, de forma intencional ou não, prejulgam sobre as capacidades que uma pessoa tem ou não devido a uma deficiência, ambientes inacessíveis.

Ao tentar se informar, se entreter ou se candidatar a uma vaga de trabalho ou curso na internet, tenho de lidar com sites e aplicativos sem legendas, sem áudio-descrição. Na experiência ao vivo, encontro ambientes sem pessoas preparadas, que não sabem diferenciar as cores da bengala de uma pessoa com deficiência visual ou que falem libras.

As dificuldades não param por aí. Ter baixa visão é algo complexo. Bater com o rosto no poste na rua, tropeçar em um degrau, esperar alguém para ajudar a atravessar uma avenida. Usar bengala ou cão guia para me locomover, definir dias e horários da semana para cumprir meus compromissos sem correr tanto perigo nos horários de pico.

Cadê este mundo inclusivo?

Eu preciso lembrar as pessoas da minha existência a todo momento. Tem dias que é desgastante viver com qualquer tipo de deficiência e ser taxada como uma “pessoa especial” torna isso ainda mais difícil. Esse termo destaca mais a deficiência do que o indivíduo como um todo. Somos reduzidos a ela.

Pessoas com deficiência namoram, transam, vão ao cinema, tem lazer, trabalham, estudam e não são melhores do que ninguém por fazer isso. Não somos guerreiros nem super-heróis, somos pessoas comuns e que merecemos viver como qualquer outra.

Não me adapto mais a este mundo tão inacessível.

*Tauany Salles, 27, é estudante de psicologia na Universidade Nove de Julho e moradora de Guarulhos, na Grande São Paulo. Ela está a procura de um estágio ou proposta profissional. tauany.salles22@hotmail.com

*Este texto faz parte da Pode Crer, editoria de opiniões e crônicas da Agência Mural. Todo começo de mês, um autor ou autora convidado escreve neste espaço.

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