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Agência de Jornalismo das periferias

Por: Jacqueline Maria da Silva | Katia Flora

Edição: Sarah Fernandes

Publicado em 18.01.2024 | 16:17 | Alterado em 31.01.2024| 14:13

RESUMO

Oito em cada 10 pessoas entre 18 e 34 anos já consumiram cigarros eletrônicos ao menos uma vez

Tempo de leitura: 8 min(s)
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É sexta-feira à noite e faz calor. Adolescentes e jovens dividem espaço na calçada, em conversas animadas, embaladas por músicas nas caixinhas de som. Sobre a mesa, além de copos e petiscos, estão também os chamados “vapes”, um tipo de cigarro eletrônico saborizado que geralmente é consumido entre amigos, de forma compartilhada.

Halls de melancia, red blend, grape ice e black note são alguns dos sabores dos chamados “juices” – líquidos que abastecem os vapes e que ganham um ar “descolado” e refrescante, sem fumaça ou cheiro. Um simples puxe é suficiente para passar o vape para o amigo experimentar ou para receber dele um dispositivo com um novo sabor.

Embora esse cenário tenha se tornado comum nas periferias da Grande São Paulo, ele revela um hábito crescente e preocupante entre adolescentes e jovens: o consumo dos chamados DEFs (Dispositivos Eletrônicos para Fumar), como os cigarros eletrônicos, vapes e pods. Apesar dos danos à saúde, conquistam cada vez mais usuários.

DEFs são aparelhos de diferentes formatos que funcionam a bateria e contêm aditivos com sabores, substâncias tóxicas e nicotina. Dentro dessa classificação estão o narguilé e os cigarros eletrônicos, que incluem dispositivos de mão, como pods e vapes.

“Muitas vezes tenho tosse e sinto a garganta, que fica doendo. Eu sinto mais fadiga”, relata lojista e fumante Nicoly Silva, 19, de Osasco, na região metropolitana. “Já aconteceu de ficar tonta e com falta de ar. Não conseguia levar minha filha de dois anos no colo e meus dentes ficaram mais amarelados”, comenta a frentista e também fumante Beatriz Duarte Cardoso da Silva, 24, da Cidade Tiradentes, zona leste de São Paulo.

A aparência inofensiva, a variedade de sabores e a popularização desses dispositivos, usados livremente em baladas, tabacarias e nos intervalos de aulas, dificultam uma constatação já comprovada: muitos jovens desenvolveram dependência dos cigarros eletrônicos, e a maioria só procura ajuda médica quando manifesta condições de saúde.

E a lista é longa: infarto, câncer e doenças respiratórias como pneumonia, asmas, enfisema e a chamada Evali (lesão aguda pulmonar por eletrônicos, em português) – uma doença especificamente associada aos cigarros eletrônicos. A Evali causa fibrose no pulmão e um aspecto de embranquecimento nos exames de imagem, semelhante ao provocado pela Covid-19, o que, por vezes, dificulta a origem do problema.

Aparência inofensiva dos cigarros eletrônicos é parte da estratégia das indústrias para conquistar novos usuários @Léu Britto/ Agência Mural

Os primeiros casos de Evali associados aos cigarros eletrônicos foram registrados nos Estados Unidos, em abril de 2019, afetando jovens na faixa dos 20 anos. No Brasil, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) notificou sete casos até metade do ano passado, embora essa estatística possa não refletir totalmente a realidade, uma vez que a Evali não é uma doença de notificação obrigatória.

Devido aos riscos à saúde, em 2009 foi aprovada a Resolução 46 da Anvisa, que proíbe a comercialização, importação e propaganda de DEFs, assim como seu uso em locais fechados, privados ou públicos. Importante dizer que o uso não é considerado crime, mas sim a venda, sujeita a pena de reclusão de um a cinco anos, além de multa.

Magno Borges/ Agência Mural

Por que fumo?

Um, dois, três puxes foram suficientes para substituir o narguilé pelo pod. “Experimentei, gostei e achei mais prático de fumar do que o narguilé, que tem todo o processo de acender carvão”, descreve o fiscal de loja Wellington Arruda Lima, 29, do Aricanduva, zona leste de São Paulo.

Há dois anos, o pod se tornou parte da rotina do jovem, em um uso que ele define como “recreativo”: sempre aos finais de semana, em reuniões com os amigos. Um consumo menor que o maço e meio de cigarros convencionais que fuma por dia desde os 19 anos — e não pretende parar.

“Tem pessoas que precisam de incentivo para parar, mas não é o meu caso”, admite. “Existem os dois lados da moeda: tem a vontade de fumar, mas a nicotina é viciante. É uma briga interna entre você e você”.

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Magno Borges/ Agência Mural

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Magno Borges/ Agência Mural

Ao contrário, o influenciador digital Caio Silva, 23, de Guarulhos, começou a usar vape na tentativa de abandonar o cigarro tradicional, com a intenção de preservar a saúde e o bolso.

“Você encontra vapes desde R$ 20 até R$150. Quando você pega um eletrônico que tem mais de mil puxos, sai mais barato do que você ficar comprando cigarro”, diz.

Caio chegou a ser repreendido em festas por fumar cigarro convencional, mas nunca pelo uso do eletrônico. Ele sente uma maior aceitação social ao usar o vape, o que atribui ao fato de o consumo desses dispositivos geralmente ocorrer em grupos, de forma compartilhada, semelhante ao narguilé.

Puxos, puxes ou puff se referem ao ato de tragar o cigarro eletrônico e também à quantidade de vaporadas permitidas pelo aparelho na hora da compra: um aparelho com mil puxos permite mil tragadas.

Outras características do produto, como vapor com aroma, a ausência de fumaça e a sensação de falso relaxamento que provoca, contribuem para a crescente popularidade dos cigarros eletrônicos nas quebradas.

“Os aromatizantes químicos vaporizados são extremamente importantes na sedução do tabagismo, porque agregam o prazer do aroma e do cheiro, e fornecem uma memória afetiva”, diz o médico pneumologista Ciro Kirchenchtejn, membro do Fórum de Tabagismo da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT).

Foram justamente essas características que atraíram a lojista Nicoly, de Osasco, para o uso do pod. Quando experimentou pela primeira vez, há dois anos, em um grupo de amigos, o sabor e a facilidade de usar e transportar tornaram o consumo um hábito diário, especialmente após almoço e à noite. “O pod tem cheiro de fruta, gosto doce, você consegue dar um puf até no banheiro”.

Foram justamente as facilidades no consumo dos DEFs que acenderam um sinal vermelho para a frentista Beatriz: o medo do hábito se tornar um vício fez com que ela interrompesse recentemente o uso, após três anos de consumo, que teve início quando ganhou um pod de aniversário do irmão.

Desempregada na época, ela enxergou a possibilidade de reduzir os gastos com cigarro convencional, mas percebeu que o uso constante continuava pesando no bolso — e na saúde.

“Eu fui pegando um vício. Comprava para revender e ganhava ou pegava um de sabor diferente para provar, porque muita gente me perguntava qual o mais suave, intenso, gostoso e eu sabia informar”. Depois de ser informada da proibição da Anvisa sobre as vendas, ela deixou de comercializar os dispositivos.

‘Prefiro estar reunido com amigos fumando um pod do que em outro rolê’, diz Wellington Arruda Lima @Léu Britto/ Agência Mural

Cada vez mais jovens

Em geral, quem tem mais de 24 anos iniciou o tabagismo com cigarros comuns e, depois, optou pelos eletrônicos. Por outro lado, os adolescentes são mais atraídos pelos pods e vapes, uma tendência nesta faixa etária.

“O pod trouxe muita gente pra essa vida [tabagismo]. Eu conheço muita gente de 13, 14, 15 anos que usam sem se preocupar em esconder dos pais, como o cigarro comum, que tem gosto ruim, cheiro que impregna. O uso dos vapes é muito menos perceptível. Hoje eu vou em lugares que é proibido usar cigarro, mas é aceito o pod, porque não há fogo, cinzas ou fumaças”, afirma Nicoly, hoje com 19 anos.

Dados da Pesquisa Nacional de Saúde Escolar mostram que quase 23% dos escolares entre 13 e 17 anos já fumaram cigarro uma vez na vida, e quase 17% já haviam experimentado cigarro eletrônico.

“O tabagismo por si só já é uma doença considerada no CID, Classificação Internacional de Doenças, mas ela também é considerada pela OMS (Organização Mundial da Saúde) como uma doença pediátrica, porque os fumantes adultos de hoje começaram a fumar antes dos 19 anos”, declara Mariana Pinho, coordenadora do Projeto Tabaco da ACT Promoção da Saúde.

Ciclo vicioso

A nicotina atua nos neurotransmissores (células do sistema nervoso) provocando sensação de prazer imediato. No entanto, quando a pessoa cessa o uso, porém, sintomas de nervosismo, irritação, tristeza e falta de concentração podem retornar ainda mais intensos. Para se sentir bem, a pessoa precisa consumir o cigarro com maior frequência ou em maior quantidade.

Eu consigo parar?

Estudos comprovam que a dependência dos vapes, pods e cigarros eletrônicos é tão intensa quanto a dos cigarros convencionais. Isso ocorre porque esses dispositivos também possuem quantidades significativas de nicotina, que, além de causar dependência, acentuam os sintomas de estresse e ansiedade, motivando ainda mais o consumo, criando assim um ciclo vicioso.

“O pod eu consigo parar [se quiser], mas o cigarro não, pelo tempo de uso. Eu não penso em parar, pois acredito que uma doença, como um câncer por exemplo, é causado por vários fatores. Compenso o risco com atividade física e alimentação saudável”, declara Wellington.

Já Nicoly quer parar de usar pod, mas só pensar em ficar sem já sente ansiedade. “Ainda estou em um meio termo: quero parar e ainda tenho muita dificuldade. Você fuma deitada no seu quarto, no banheiro, em qualquer lugar. É justamente essa praticidade que vai te pegando, aos poucos, sem você perceber. Todos os dias é uma luta para diminuir o consumo”.

No caso dos adolescentes, os efeitos da dependência podem ser ainda mais graves. “A nicotina entra no organismo rapidamente e atua no sistema nervoso central, que neles ainda está em desenvolvimento. Isso pode alterar o funcionamento do cérebro, o aprendizado e causar dependência”, pontua Mariana, coordenadora da ACT.

Por isso ela reforça que é necessário tratar o tabagismo para além de uma decisão pessoal, mas como uma doença e que exige tratamento.

Sinais de alerta sobre tabagismo entre os jovens

1

 22,6% dos estudantes entre 13 e 17 anos  já fumaram cigarro ao menos uma vez

2

11% experimentaram o cigarro comum pela primeira vez antes dos 14 anos

3

Nessa faixa etária, 26,9% já haviam experimentado narguilé no Brasil. Em São Paulo foram 45,9%, o quarto estado com mais incidência

4

Dos alunos entre 13 a 17 anos, 16,8% já haviam experimentado cigarro eletrônico. A maior parte (22,7%) entre 16 e 17 anos

5

80% dos jovens entre 18 e 34 anos já consumiram cigarros eletrônicos ao menos uma vez; na faixa dos 18 anos aos 24 anos, um em cada cinco jovens já fez uso do dispositivo

6

2,3% da população brasileira faz uso dos cigarros eletrônicos

 Fonte: Pesquisa Nacional de Saúde EscolarRevista Fapesp

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Magno Borges/ Agência Mural

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Popularidade ou epidemia? O Lobby dos cigarros eletrônicos

A opinião dos entrevistados é unânime: o crescente uso de cigarros eletrônicos entre jovens das quebradas pode estar associado ao fácil acesso aos dispositivos em tabacarias; ao consumo como mecanismo de fuga contra o estresse diário; e às restritas alternativas de lazer dentro das periferias.

“O nosso divertimento na periferia é diferente, eu gosto muito mais de estar reunido com amigos fumando um cigarro e um pod do que em outro rolê”, aponta Wellington.

Esses, porém, não são os únicos fatores que influenciam o consumo. Segundo especialistas, existe uma ideia errônea de que o cigarro eletrônico seria uma alternativa para quem deseja largar o tabaco comum ou que seriam menos danosos à saúde, por não produzirem fumaça como o cigarro convencional, composta por monóxido de carbono.

Uso de cigarros eletrônicos está associado a diversas doenças, como infarto, câncer, pneumonia, asmas, enfisema e evali @Léu Britto/ Agência Mural

“Essa ‘cultura’ dentro da periferia [uso de cigarros eletrônicos] se instaurou sem conscientização”, acredita o influenciador digital Caio, que avalia que informações sobre os malefícios dos dispositivos nem sempre estão acessíveis e não há alertas nas embalagens, como nos cigarros convencionais.

Pesquisas comprovam que os cigarros eletrônicos possuem maior teor de nicotina líquida que os convencionais, o que pode causar dependência com mais facilidade.

O pneumologista Ciro Kirchenchtejn exemplifica: uma pessoa que consome um maço de cigarros convencionais diariamente (20 unidades) inala cerca de 40mg de tabaco ao dia, já que cada unidade possui 2mg. O reservatório do cigarro eletrônico, por sua vez, possui 60mg de tabaco, o equivalente a 30 cigarros. Assim, um pod equivaleria a um maço e meio.

Para além do tabaco, o especialista reforça que o cigarro eletrônico contém muito mais substâncias cancerígenas que os convencionais, por conter uma bateria que possui metais pesados, diluidores de nicotina (glicerina e propilenoglicol) e os saborizantes, que quando vaporizados agridem os pulmões e aumentam o risco de doenças respiratórias.

Apesar dos malefícios, grandes empresas do setor se empenham em tentar legalizar o uso dos DEFs no Brasil. Atualmente, tramita no Senado o PL 5008/2023, da senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS), que propõe a regulamentação de cigarro eletrônico no país. O texto prevê a liberação de produção, importação, exportação, comercialização, fiscalização e propaganda dos cigarros eletrônicos.

Para se tornar Lei, o PL deverá ainda ser aprovado pelo Senado e pela Câmara dos Deputados e ser sancionado pela Presidência da República. Contudo, ainda passa por análise na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado.

Na contramão dessas iniciativas, a OMS (Organização Mundial da Saúde) tem se posicionado contra a legalização desses dispositivos, atualizando constantemente seu relatório de Riscos e Impactos do Registro de DEFs no Brasil.

Venda de cigarros eletrônicos é proibida no Brasil, com pena de reclusão e multa @Léu Britto/ Agência Mural

Com a pressão a favor da legalização, a Anvisa autorizou, no dia 1 de dezembro, a abertura de uma consulta pública para revisar a proibição do DEF no Brasil, ainda sem data para acontecer. Com esse mecanismo, o órgão busca contribuições da sociedade para formulação de políticas de regulação.

Quem quiser enviar sua contribuição, deve acessar e preencher o formulário do governo até 9 de fevereiro.

Em âmbito local, a ACT Promoção da Saúde implanta ações em defesa de políticas públicas de controle do tabagismo, álcool e alimentação saudável. “Fazemos campanhas buscando atrair os jovens para explicar os prejuízos dos cigarros eletrônicos, produzimos workshops e roda de conversa para conscientização”, diz Mariana, coordenadora da organização.

A busca precoce por ajuda na prevenção e tratamento do tabagismo são fundamentais para garantir saúde, qualidade de vida e autonomia dos jovens periféricos. O SUS (Sistema Único de Saúde) oferece diversas formas de apoio e tratamento. Encontre o posto de saúde de São Paulo mais próximo para tratamento do tabagismo.

Apesar de proibidos, cigarros eletrônicos são vendidos livrementes em centros comerciais @Léu Britto/ Agência Mural

Narguilé tem perdido espaço entre jovens devido à dificuldade no uso @Léu Britto/ Agência Mural

Anvisa lançou consulta pública para definir políticas de controle ao uso de DEFs @Léu Britto/ Agência Mural

Pesquisas comprovam que cigarros eletrônicos são tão viciantes quando os convencionais @Léu Britto/ Agência Mural

OMS considera tabagismo uma doença pediátrica @Léu Britto/ Agência Mural

'Tem a vontade de fumar e a nicotina viciante. É uma briga entre você e você”, diz Wellington @Léu Britto/ Agência Mural

*Os nomes de Nicoly e Caio são fictícios, a pedido dos jovens, a fim de evitar punições.

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Esta reportagem foi produzida com apoio da Report For The World

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Jacqueline Maria da Silva

Jornalista formada pela Uninove. Capricorniana raiz. Poetisa. Ama natureza e as pessoas. Adora passear. Quer mudar o mundo e tornar o planeta um lugar melhor por meio da comunicação. Correspondente de Cidade Ademar desde 2021. Em agosto de 2023, passou a fazer parte da Report For The World, programa desenvolvido pela The GroundTruth Project.

Katia Flora

Jornalista com experiência em jornalismo online e impresso, tem publicações em diversos veículos, como Uol, The Intercept e é ex-trainee da Folha de S. Paulo no programa para jornalistas negros. Correspondente de São Bernardo do Campo desde 2014.

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