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Agência de Jornalismo das periferias

Por: Ira Romão

Notícia

Publicado em 19.08.2022 | 13:34 | Alterado em 19.08.2022 | 19:36

Tempo de leitura: 5 min(s)
Esta reportagem foi produzida com o apoio do Instituto Unibanco IU

Sete décadas. Esse foi o tempo que a aposentada Maria Nascimento da Silva, 73, teve que esperar para conseguir concluir a educação básica, sonho que ela carregava desde criança. “Sempre tive muita vontade de estudar e ter um diploma”, diz.

Natural de Correntes, em Pernambuco, Maria atualmente mora em Perus, na zona noroeste de São Paulo. Após perder o marido, há oito anos, ela foi encorajada pelos três filhos e demais familiares a encarar o desafio de voltar a estudar.

O recomeço foi em 2017, quando ela, aos 68 anos, ingressou no primeiro ano do ensino fundamental por meio do EJA (Ensino para Jovens e Adultos). A conclusão desse primeiro período veio após dois anos.

Em 2021, a moradora concluiu também o ensino médio. Hoje ela faz um curso técnico em Recursos Humanos no CEU (Centro Educacional Unificado) Perus, enquanto planeja o passo seguinte: ingressar no ensino superior.

Trajetória

Aos seis anos, a pernambucana se mudou com os pais para Arapongas, no Paraná. Foi lá que ela, a caçula de nove irmãos, foi a única da família a chegar ao terceiro ano do fundamental.

“A escola era muito longe de casa. Morávamos em uma fazenda e meu pai tinha que nos levar a pé. Saímos de casa às 8h para entrar às 13h. E voltávamos tarde da noite”

Maria Nascimento da Silva, aposentada

“Sem falar que ele tinha que trabalhar e não podia nos acompanhar sempre. Por isso, não íamos todos os dias à escola”, recorda.

Diante das dificuldades, aos 10 anos, ela teve que deixar os estudos de lado. “Mas eu vivia com papel e lápis nas mãos. Gostava de brincar de ser professora e pedia aos meus pais para voltar à escola”, conta, enfatizando que isso nunca aconteceu.

Maria terminou os estudos aos 72 anos @Ira Romão/Agência Mural

O sonho de estudar era nutrido pela história de vida do avô materno, que ela nem chegou a conhecer. Mas os relatos sobre ele, contados pela mãe, a inspiravam. “Ele chegou a cursar três anos de medicina e tinha uma farmácia onde atendia as pessoas, fazendo curativos. Queria ser como ele”, diz.

Aos 16 anos de idade, Maria se casou. Anos depois teve o primeiro filho e logo a família mudou para Ouro Verde de Minas, em Minas Gerais, onde nasceram os outros dois filhos do casal. Passada uma década, a família migrou para São Paulo, onde vive há 35 anos.

Mesmo sem incentivo, ela nunca deixou de sonhar com o regresso à sala de aula. “Meu marido não concordava que eu estudasse. No início ele dizia que eu tinha que cuidar das crianças e da casa”, relembra.

Depois, quando passou a trabalhar fora de casa como cozinheira, costureira e faxineira, o argumento era que “estudar de noite seria perigoso”. “Sou de uma época em que a mulher era muito submissa ao marido, então nunca pensei em contrariar o meu”, afirma.

No entanto, ela sempre voltava no assunto com ele. Em 2010, chegou a fazer um curso de informática com certificado para aprender a mexer melhor no computador. Com a mesma insistência, sempre incentivou que os filhos estudassem. Desejava que eles “se tornassem doutores”.

“Mesmo na roça, sempre demos um jeito para eles estudarem. Mas aqui em São Paulo, eles começaram a trabalhar bem novos e não aguentaram a rotina de trabalho e escola. Por isso, foram abandonando os estudos”, fala a mãe com pesar por nenhum dos filhos ter concluído o ensino médio.

O retorno à escola

Na primeira tentativa de se matricular em uma escola, Maria foi informada de que precisaria do histórico escolar para retomar de onde parou. Sem tê-lo, foi orientada em outra unidade a recomeçar do 1º primeiro ano do fundamental. E assim ela fez!

Ela ainda se lembra da felicidade que tomou conta dela no primeiro dia de aula. “Até dar o horário da aula, fiquei andando em casa de um lado para o outro. Me olhava no espelho e dava risada sozinha”, recorda.

Maria com o diploma. Hoje ela pensa em estudar psicologia @Ira Romão/Agência Mural

A alegria era tanta que, ao saber que tinha concluído o ensino médio, pediu para ser reprovada só para não deixar de ir à escola. O que, claro, foi negado.

“O rapaz da secretaria me disse: ‘dona Maria, a senhora tem que ir para frente e não para trás’. Voltei para casa sem graça”, conta. Ao compartilhar a frustração com os familiares, foi aconselhada a se inscrever no curso técnico no qual está hoje.

“Quando soube que tinha passado, dei pulos de alegria dentro de casa. Chorei abraçada com minha nora e neta. Me emociono até hoje só de lembrar”

Maria Nascimento da Silva, aposentada

Apesar da euforia e ansiedade em começar o novo curso, ela se deparou com comentários de pessoas que tentavam desencorajá-la. “Falavam que, quando eu chegasse no curso, onde teriam mais jovens, eles ririam de mim”, relata.

A recepção, por outro lado, foi o oposto disso. “Ao me apresentar, contei para os professores e para a diretora sobre meu receio de que rissem de mim, e tanto elas quanto os outros alunos me acolheram.”

Uma nova mulher

Desde que voltou à escola, Maria se sente outra mulher. “Agora saio sem medo de me perder. Me sinto mais segura. Não tenho mais vergonha de perguntar as coisas quando não sei algo. Ando de cabeça erguida”, avalia.

“Hoje me considero uma flor de açucena. Porque quando ela floresce, é difícil as pétalas caírem. Elas duram muito. Considero que agora estou florescida”, completa.

Maria sente que o estudo dela tem inspirado pessoas próximas @Ira Romão/Agência Mural

A convite dos professores, Maria tem compartilhado a felicidade e a história com outros alunos do CEU. E, assim, ela tem inspirado muita gente a seguir firme nos estudos.

Isadora da Silva, 19, é colega de classe e diz que a história de Maria “a motiva a ser uma pessoa melhor e a não desistir”. Joana Dark Oliveira, 50, também estudante do curso, sente o mesmo. “Quando penso em desistir, me lembro da história dela”, afirma.

Outra colega, Maria Aparecida dos Santos, 57, lembra que a xará, além de “ser inspiração e muito guerreira”, levanta o astral de todo mundo, pois está sempre com um sorriso no rosto.

Maria também tem dado depoimento na igreja que frequenta e conta que algumas pessoas a procuraram para dizer que voltaram a estudar depois de ouvir a trajetória dela.

Mas a maior satisfação é estar inspirando a própria família. “É um orgulho ouvir minhas netas falarem que se espelham em mim”, diz. “Até meu filho caçula falou que vai voltar a estudar junto com a minha nora porque me viram fazer o mesmo.”

A história dela chegou ao Canadá. “Tenho sobrinhos que moram lá. Eles têm tanto orgulho de mim que um deles contou minha trajetória para o chefe, falando do curso técnico em RH. E o chefe mandou me chamar. Falou que gostaria que eu fosse fazer estágio lá”, conta entusiasmada.

Apesar da tentadora oferta, a futura técnica em recursos humanos não pretende aceitar a proposta. “Como vou para lá se não falo inglês? E é muito longe. Meus filhos ficariam preocupados.”

Além disso, ela tem outros planos: cursar a graduação em psicologia logo após o curso técnico. “Sempre sonhei em ser psicóloga. Porque gosto de ouvir o que as pessoas estão sentindo. Gosto de ouvir os problemas delas porque assim vou chegando naquele eixo do porquê da dor”, detalha.

Mesmo sabendo que ainda terá obstáculos a enfrentar, Maria garante que seguirá em frente. “Quero mostrar para os meus filhos, netos e bisnetos que não há limite de idade para estudar. Quero deixar para eles o exemplo de que estou conseguindo porque, quando temos um sonho, vamos em frente”, finaliza.

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Ira Romão

Jornalista, fotojornalista e apresentadora de podcast. Atuou em comunicação corporativa. Já participou de diferentes projetos como repórter, fotógrafa, verificadora de notícias falsas e enganosas. Foi uma das apresentadoras do ‘Em Quarentena” e da série sobre mobilidade nas periferias. Ama ouvir histórias, dançar, karaokê e poledance. Correspondente de Perus desde 2018.

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