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Agência de Jornalismo das periferias

Por: Paulo Talarico

Crônica

Publicado em 05.04.2022 | 15:57 | Alterado em 05.04.2022 | 15:59

Tempo de leitura: 4 min(s)

Era sábado na estação de Osasco quando percebi que havia entrado na armadilha. A passagem já estava paga, mas foi só na plataforma que ouvi o alto-falante: “Por motivo de falha elétrica, os trens com destino ao Grajaú estão partindo de Presidente Altino”.

Não era um aviso incomum para quem vai a Osasco, na Grande São Paulo, pegar o trem da linha 9-Esmeralda, mas dá sempre aquela pontada de frustração saber que não vai ser dali o único trem do trajeto e você vai ter que fazer baldeação. Se visse antes, poderia ter tentado, sei lá, cancelar o rolê. Como já estava lá, vamos esperar. Mas, desta vez, a situação parecia mais caótica do que nos tempos do passado.

O locutor repetiu mais uma vez informando que era preciso pegar o trem na plataforma 4, sentido Júlio Prestes, na linha 8-Diamante, para descer na estação Presidente Altino, de onde estaria o trem para o Grajaú.

E ele falou mais uma vez. Repetiu de novo. De repente, me dei conta que já eram umas dez vezes em que ele falava isso do trem. Conforme ele repetia, insistentemente, bateu a dúvida:

Cadê o trem da linha 8 para chegar em Presidente Altino?

Foi nessa hora que lembrei que ali havia uma mudança. As duas linhas tinham sido privatizadas pela Via Mobilidade e, desde então, o que já tinha momentos complicados de lotação se tornou ainda mais tenso para quem anda de trem. Em dois meses houve falhas na operação, transtorno aos passageiros, acidente fatal e batida.

Ou seja, a armadilha na qual havia me metido parecia ainda mais desafiadora. Porém, focado naquele otimismo que as horas de antecedência me permitiam – saí duas horas antes, como é a precaução de quem mora longe – vesti a cara do “vai dar tudo certo” e fui ler aqui meu livro como se nada estivesse acontecendo.

Mas a cada linha do texto, vinha uma voz: “os trens com destino ao Grajaú estão partindo de Presidente Altino”. Mas ele já falou isso. “Embarcar no trem sentido Júlio Prestes na plataforma 4”. Ok, já entendi, querido. Vamos ler, mas… “Os trens com sentido…” Meu Deus.

A pergunta que não queria calar era: quando o trem chegaria na plataforma 4? Plataforma que quando cheguei estava vazia e agora começava a lotar. A paciência foi virando aflição conforme ele deixava claro que não íamos sair dali.

Para piorar, eu estava sentado num banco preferencial na parada, o que só percebi quando uma senhora veio de forma sutil na minha direção. “VAZA!”.

Não, ela não falou isso. Mas foi o que senti e já sai dali de fininho. Ela na real só agradeceu.

Falhas têm marcado privatização de linhas da CPTM @Zeca Ferreira/Agência Mural

Como você deve ter notado, os trens com sentido ao Grajaú não partiriam da estação Osasco. E eu tinha que esperar o trem que chegasse na plataforma 4. Lição de casa feita. Eis que, finalmente, chega um trem na plataforma 4. Ufa. Mas o trem vinha na contramão, e a placa dizia “Itapevi”. Ué.

Primeiro, imaginei que era o trem vindo do sentido contrário, vazio, para as pessoas embarcarem sentido Júlio Prestes, sem lotação. Sim, acreditei nessa fantasia.

Se fosse para Itapevi, o moço que desesperadamente repetiu 165 vezes sobre a situação dos trens para o Grajaú teria avisado que era um trem para Itapevi. Principalmente, porque quem ia para Itapevi estava na plataforma 1, lá do outro lado, e teria que subir uma escada, atravessar a passarela, descer a escada correndo para chegar a tempo. É. Ninguém chegou.

O trem realmente ia para Itapevi. Ninguém na estação avisou. Quem estava há 40 minutos do outro lado esperando, do outro lado ficou. E o trem partiu lotado, devagar, em silêncio.

A confusão estava feita. “Tá tendo problema todo dia”, começou a reclamar uma passageira. “Tô aqui, mas não tem trem”, disse outro senhor no áudio alertando que se atrasaria. Na outra plataforma, alguns jovens perdidos perguntavam: “Pra onde vai o trem pro Grajaú?”. “Tem que atravessar, dizem que vai sair daqui o trem para Júlio Prestes, mas acabou de sair para Itapevi”. “Itapevi parou aí? Mas ninguém avisou”.

Foi quando veio, finalmente, o trem com destino a Júlio Prestes. Deu tempo de quem estava perdido na outra plataforma atravessar para pegar o veiculo no lado certo. Foi a última vez que ouvi que os trens com sentido ao Grajaú estão partido de Presidente Altino. Foi quase uma hora para andar uma estação.

Em Presidente Altino, pessoas lotavam as escadas esperando. Ali era avisado que os trens tanto para Júlio Prestes quanto para Itapevi seguiam em um único destino. Menos mal.

Depois, soube que o motivo era uma falha na rede elétrica e que os passageiros tiveram de andar pelos trilhos, como contou o Diário do Transporte. Nas últimas semanas, a empresa que administra as duas linhas também disse que, nos próximos meses, as principais mudanças, capazes de conferir mais estabilidade às linhas, já poderão ser sentidas.

Esperamos que pelo menos saber o lado para onde o trem vai seja uma dessas melhorias.

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Paulo Talarico

Editor-chefe e cofundador da Agência Mural, é formado em Jornalismo pela Universidade São Judas Tadeu e em História pela Universidade de São Paulo.

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