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Agência de Jornalismo das periferias

Por: Matheus Oliveira

Notícia

Publicado em 02.12.2022 | 13:08 | Alterado em 08.12.2022 | 16:58

Tempo de leitura: 4 min(s)

“A história do samba é muito longa, não começou comigo. Fui a consequência de um acontecimento”, diz Maria Aparecida da Silva Carlos, 82, a Tia Cida dos Terreiros e conhecida como a matriarca do samba em São Mateus, na zona leste de São Paulo.

Filha de Maria Hercília Carlos e Otávio Henrique de Oliveira, o sambista Blecaute – cantor da marchinha de carnaval “General da Banda” –, e com família de seresteiros, Tia Cida abriu seu quintal para as rodas de samba e com a sua alegria fez resistência.

Ela conta que o samba era o Pai Nosso e a Ave Maria de sua casa, e que afastava qualquer tristeza dali.

“O sentimento que tenho pelo samba é pleno e total, até porque eu tinha a consciência de que eu era filha de um sambista. Minha mãe gostava de samba. Fui criada nesse meio, foi o que aprendi”, diz.

Grafite do grupo OPINI, na Rua Vitório Azzalin, em São Mateus, traz Tia Cida alegre sobre as favelas do bairro @Matheus Oliveira/Agência Mural

Tia Cida cresceu com os tios, na Vila Madalena, na zona oeste da capital, e conta que todos trocavam músicas e cantavam juntos.

Aos nove anos veio para o bairro de São Mateus onde teve outro contato com a música por meio do marido de sua madrinha, Nildo Gregório. Nildo foi um homem preto com relevância na história de São Mateus, responsável por abrir ruas no bairro e instalar a “Voz da Colina”, uma espécie de rádio comunitária.

Do samba à igreja

Depois, Tia Cida passou a cantar na igreja de São Mateus Apóstolo, na zona leste, e para ajudar com as despesas da casa ela começou a fazer faxina e lavar roupa para fora. Como tinham muitas Cidas no bairro, a sambista ganhou o apelido de Cida Preta.

“Eles sabiam de quem eu era filha e o encantamento de eu cantar na igreja. Uma negra que canta samba cantar na igreja. O pessoal vinha de longe para ver e ouvir”

Foi ali, na igreja de São Mateus Apóstolo, a principal do bairro e próxima a Avenida Mateo Bei, que Tia Cida começou a dar aulas, cuidar de crianças na creche e desenvolver trabalhos sociais com apoio do Padre Franco.

Nos anos 1970, a região não tinha asfalto e saneamento básico, por exemplo, e era preciso alguém à frente do movimento em busca de melhorias. Chegou Tia Cida para “colocar o pessoal para fora de casa”, como ela conta.

“Se dizia: ‘São Mateus é um bairro pequeno, é preciso participação para o bairro crescer [e ter serviços públicos]. Trazer o pessoal pra fora pra participar, pra estar junto’. O pessoal se animou bastante”, complementa.

Mesmo assim, as reuniões da associação de bairro eram às escondidas para evitar a repressão da ditadura militar (entre 1964 e 1985), onde encontros políticos eram proibidos.

O samba era vadiagem

Já casada e com filhos, Tia Cida se mudou para o Jardim Vila Carrão, o Carrãozinho, também na zona leste, onde o quintal da sua casa se abriu de vez.

Os músicos Tocão, Gerson Dias e Yvison Pessoa acompanham a música enquanto Tia Cida canta @Matheus Oliveira/Agência Mural

Na década de 1980, o filho mais novo, Marcelo Hercílio Carlos, 52, conhecido como Tocão, ganhou um banjo de Tia Cida por passar no curso de torneiro mecânico no Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial). Os meninos do bairro vinham até a casa dela atrás do Tocão para ouvir e aprender o samba.

A mesma repressão que existia sobre as reuniões da associação dos moradores existia sobre a música.

“Para a polícia o samba era vadiagem. Se começou a cantar e pegou um cavaco e um violão, é vagabundo. Era melhor abrir a porta de casa e colocar esses meninos pra dentro. E foi crescendo. Todo mundo sabia onde era a casa do samba”, relembra.

Mesmo assim, os “meninos” da Tia Cida já apanharam, tiveram os instrumentos quebrados e pegaram uma noite de cadeia por conta do samba.

Para levar o trabalho social para frente, Tia Cida fez faculdade de assistência social nos anos de 1990. Aliando a prática com a teoria da academia, Cida administrou várias creches de São Mateus, onde fez rodas de samba para complementar o dinheiro que faltava na rede pública.

“Criança não pode esperar. Faltava arroz, faltava feijão, e a criança lá, querendo comer. Você tinha que dar um jeitinho e eu não esquentava a cabeça com isso. Dava samba no final de semana, juntava dinheiro e fazia a compra”, conta.

A matriarca com seu filho Marcelo e sua filha Carmem Silvia Carlos, a Tuca, dois dos quatro filhos que teve @Matheus Oliveira/Agência Mural

Foi quando trabalhava como diretora de creche que surgiu o convite para gravar seu primeiro CD, em 2013. O álbum veio de um dos garotos que procurava o Tocão para aprender samba. Yvison Pessoa, 45, fez parte do quinteto Em Branco e Preto e já tocou com Beth Carvalho em shows.

Anos antes, a viagem do quinteto para Nova York, nos Estados Unidos, gerou um documentário do Sesc, em que Tia Cida fez uma pequena apresentação.

A produtora do filme se interessou pela matriarca do samba e o trabalho foi feito. “Sempre gostei de cantar, mas estar formando um CD pra mim foi novidade. Pensava: ‘ah, meu Deus do céu’. Mas eles que me arrastaram”, lembra Tia Cida.

Com essa ponte, de Yvison com Beth Carvalho, Tia Cida conheceu a madrinha do samba. Além disso, Tocão, que tocou com Almir Guineto, intermediou o encontro do sambista com a matriarca de São Mateus.

Tanto Beth quanto Almir participaram também do álbum “Berço do Samba de São Mateus”, lançado em 2006. A produção foi feita pelo quinteto Em Branco e Preto. O disco é uma forma de reunir os sambistas formados nas rodas de samba do bairro.

O amor pelo samba

Tia Cida fala de seu samba com o mesmo amor que fala do filho. “A gente fundou o samba aqui em São Mateus pela própria história da gente. O Marcelo viajou, foi para fora pelo samba. É uma coisa que marca a gente.”

Hoje, aos 82 anos, celebrados em 26 de novembro, Tia Cida dos Terreiros tem no samba o chão onde fundamentou sua história e a alegria de seu lar.

“O samba é um caminhar de vida, ele continua dentro da gente, falando da gente e expondo a gente para o mundo. E o samba tem que continuar”

“De agora para frente ele tem que ser mais forte e temos de tirar essa força do próprio samba”, aconselha a matriarca do samba de São Mateus.

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Matheus Oliveira

Bairrista até no nome, Matheus de Souza é jornalista. Com a intuição de que a comunicação vai além das palavras, busca a evolução ao som de muita música brasileira. Correspondente de São Mateus desde 2017.

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